segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Amazonas

Ele leu que as Amazonas tinham esse nome porque era-lhes retirado o mamilo do seio direito para não interferir com o tiro do arco. Era a forma salvaguardar a pontaria. Do grego, a que quer dizer "sem" e mazós "seio". Se ela não estivesse tão chateada com ele ao ponto de lhe ter gritado ao telefone, ele tinha-lhe escrito essa informação pelo whatsapp porque sabe que ela gosta de saber estas coisas.


sexta-feira, 24 de março de 2017

Pisar cidades

Sempre que pensa no que ainda gostava de ver, a lista tende a ser grande e cresce a cada minuto. Ele sabe que não vai conseguir presenciar em vida nem a um terço dessas coisas. Gostava de perder-se na solidão de Tóquio ou então espreitar do céu para Manhattan por aqueles binóculos em que é preciso colocar uma moedinha. A Islândia porque toda a gente tem um fascínio por aquela paisagem e nunca ninguém se queixou. Paris, Barcelona, Madrid, Praga e Roma já viu, como Londres por exemplo, por isso descartou um pouco voltar a elas, embora adore as pequenas mesas das esplanadas de Paris e goste muito de sentir aquela intimidade plagiada na Brasileira. Não lhe atrai muito Veneza e tem algum encanto por Florença embora seja em Nápoles que gostava de apostar as suas fichas. Primeiro porque ela adorou os livros da Elena Ferrante. Mergulhou neles durante meses e depois porque muitas histórias que viram e gostaram no cinema passaram-se lá. Quando marcaram a última viagem, em que decidiram visitar pela segunda vez Roma, porque não se viu tudo na lua de mel, passados uns dias e por ironia, as viagens para Nápoles passaram a ser diretas, comemorando-se a nova rota, com passagens bem baratas. Foi um golpe de azar.


terça-feira, 7 de março de 2017

Quentinho

Todos os dias ferve um litro de água para encher uma botija de borracha. Quando se deita na cama, coloca a botija junto aos pés, por baixo dos lençóis e dos cobertores. Aquele pequeno foco de calor permite-lhe passar a noite mais aconchegada. No Inverno tem sempre mais frio do que as outras pessoas e é-lhe difícil o conforto.
Os dias frios de Inverno vão passando vagarosos e dando lugar às noites mais amenas da Primavera. Ela continua a ferver o seu litro de água todos os dias. Vai haver um momento em que vai parar, vai encostar a botija a algum canto e começar a queixar-se do calor insuportável que sente. Rodear-se de ventoinhas de todos os tamanhos e deixando-as ligadas horas seguidas.
Até que o Inverno volta. Nessa altura desliga as ventoinhas e procura por todas as gavetas a velhas botija de borracha.


quarta-feira, 1 de março de 2017

Um pacote de açúcar

Amanhã não me posso esquecer de comprar açúcar. Ela lembrou-se no carro, depois de sairmos do parque de estacionamento do supermercado onde fomos fazer as compras da semana. Levámos uma lista com vários itens, mas o açúcar não estava lá e por isso não o trouxemos. Ela ficou muito desiludida por não se ter lembrado. Quando se lembrou, bateu com força as mãos no volante e disse uma asneira. Prometi-lhe que lhe trazia um pacote no dia seguinte. Ela avisou-me que eu ia esquecer-me, porque ninguém se recorda de comprar açúcar sem mais nem menos. Por isso, programei o alarme do telemóvel para tocar amanhã, mais ou menos à hora a que o meu comboio chega à estação.
Vou impressioná-la por não ter esquecido o que lhe prometi, mas ela já nem se deve lembrar do bolo que queria fazer.



quinta-feira, 19 de novembro de 2015

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Sair da Rotina

A piada é que, um momento que podia insuportável tendo em conta que estivemos uma hora e quarenta minutos parados à espera que o comboio fosse arranjado, transformou-se, para mim, no momento mais fixe do dia. A saída da rotina é uma coisa maravilhosa.


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Ricardo III

Há muito que sigo o trabalho de Tiago Rodrigues e também do Tónan Quito. Tiago Rodrigues é um encenador único que escreve as suas próprias peças e ainda por cima tem uma produtividade incrível. As peças são tão boas que andam pelo mundo em digressão, em festival e teatros e mostras recebendo constantemente os devidos elogios da crítica e do público.
Em Portugal era mais ou menos desconhecido, os seus trabalhos estavam sempre em cena meia dúzia de dias e eram vistos por meia dúzia de pessoas e quase sempre as mesmas.
Agora é o director artístico do Teatro D. Maria II e vai ter a oportunidade de mostrar o seu talento a um público mais abrangente. Começou com as tragédias gregas e, na minha opinião, foi uma das melhores coisas já feitas neste país na última década.
Agora apostou em Ricardo III encenado por Tónan Quito. É uma peça com os seus altos e baixos e os altos são mesmos altos e os baixos não comprometem. Mas o impacto cénico fascinou-me. Não consigo parar de pensar naquilo e de desenhar.