segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Zombies

Vai ser muito difícil tirar a malta dos Shoppings. A urgência da desamericanização das vidas vai acabar por mandar muitos para os antidepressivos.
Este fim-de-semana chocámos de frente com clientes que literalmente passam a manhã de domingo no Ikea para comprar uma espátula e um tupperware de tampa vermelha; e clientes que não se importam de estar três horas numa fila na Rádio Popular para poupar o IVA duma batedeira Moulinex. É de doidos!

desenho dum sueco qualquer

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O Buchas não dorme durante a tarde a não ser que seja posto em algum carro e faça uma viagem que, verdade seja dita, nem precisa de ser muito grande. Fecha logo os olhos e por vezes adormece antes de sairmos do parque de estacionamento.
Durante as férias fomos passear ao Badoka. Que tinha de ser e que agora, como é mais crescido, já acha piada aos animais que por lá andam.
Chegámos e estava uma fila duns 40 minutos para comprar bilhete. O Safari, que é melhor da festa, obrigou-nos a ficar por ali duas horas e meia sem nada para fazer, à torreira do sol e a levar com pó em cima como se fosse água em dias de tempestade.
Ingerimos para aí uns 40 litros de líquidos, ficámos todos amarelos por causa do pó e abençoámos a hora da entrada para o jipe para iniciarmos então o Safari.
O Buchas mal o jipe começou a sua marcha, ainda esteve atento aos animais, mas passado um bocado, quando dei por ele, já me tinha adormecido.
O que eu gostei mesmo foi da casa da árvore!

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Amigalhaços

Sempre achei que, se quiser estar numa fotografia com alguém, basta pedir a um transeunte a gentileza de me tirar a foto. As pessoas sempre fizeram isso e não me parece que se tenham dado mal. Tenho várias assim. Ainda no outro dia estive a ver um álbum velho, que fiz com a Melissa há 10 anos, no princípio do namoro, em Óbidos, e tenho várias fotografias em que estou eu e ela, com o ar um bocado asaloiado em várias partes da muralha, agarradinhos e todos contentes. Perfeitamente enquadrados e com uma boa vista sobre os nossos corpos e o castelo.
Mas o mundo dá as suas voltas e devido à maravilha da tecnologia já é possível registar estes pequenos momentos da vida sem pedir nada a ninguém. Basta virar a câmara com a objectiva contra o objecto que se quer fotografar, esticar o braço até não poder mais e click. Pronto, está feito!



sábado, 15 de setembro de 2012

Motelx

A Melissa adora tudo o que é terror. Apaixona-se pelos filmes, pelos livros e até tenho fotografias de mortos espalhadas pelo disco rígido do computador onde estou a escrever isto. 
Recentemente, imbuída por uma história de arrepiar que descobriu, escreveu um guião dum belíssimo filme que está para ser vendido a quem o quiser comprar e, pelo que li, é material para arrecadar o prémio principal do Fantasporto.
A ironia é que fica acagaçada muito facilmente. As fitas metem-lhe medo. Fica sem dormir agarradinha a mim e acorda em sobressalto a altas horas da noite. Recuso-me a ir ao cinema com ela para ver coisas de meter medo, porque tem ataques de pânico, crava-me a unhas na carne e não é capaz de sossegar durante a sessão. Uma chatice.
Mas como apaixonados pelo cinema que somos, não podemos virar costas ao MOTELx e sempre que para lá vamos é um stress. Qualquer dia não nos deixam entrar.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Também acho

Antes de escreveres o que quer que seja lê isto e pode ser que comeces a escrever qualquer coisa de jeito:
 "Don Basílio era um homem de aspecto feroz e bigodes frondosos que não pactuava com com parvoíces e subscrevia a teoria de que o uso liberal de advérbios e a excessiva adjectivação eram coisas de pervertidos e de gente com deficiências vitamínicas. Sempre que descobria um redactor com tendência para a prosa com floreados mandava-o escrever a necrologia durante três semanas."
 É do Carlos Ruiz Zafón no Jogo do Anjo.

Desenho de Vincent Chong

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Sangue Fresco

O Correio da Manhã gosta de premiar os seus queridos leitores, malta habituada a uma boa pitada de sangue logo pela manhã, com cheques de compras que podem ir até aos 5000 euros. É uma boa forma de manter as vendas em época de crise e, para o sorteado, um belo motivo para sorrir com a fortuna.
Além do cheque, o afortunado tem também direito ao seu momento de fama, sendo fotografado e a sua imagem estampada em destaque numa página qualquer do jornal destinada ao efeito, enaltecendo o texto que acompanha a sua fota as vantagens de ser cliente assíduo do periódico.
Não deixa de ser engraçado ver o vencedor todo contente com o matutino aberto mostrando, orgulhoso, as habituais gordas da primeira página.

domingo, 9 de setembro de 2012

O significado da globalização

Ir ao Kidzania é:

Trocar dinheiro na Caixa Geral de Depósitos
Comer um hambúrguer no Mac Donald's
Distribuir garrafas da Coca-Cola
Fazer compras no Continente
Ir a um hospital Johnson & Johnson
Enfardar um pizza na Pizza Hut
Espremer fruta para a Compal
Abastecer num posto Galp
Trabalhar numa central eléctrica EDP
Distribuir cartas nos CTT
Tirar fotos para a Sony
Fazer jornalismo na Impresa
Andar num autocarro Barraqueiro



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Mas porque é que não me deixas em paz um bocadinho?

Férias é uma palavra muito fixe, é sim senhor, e eu até andava mesmo necessitado de deixar de trabalhar por uns tempos. O meu cérebro, no último dia de labuta, era uma papa incapaz de produzir qualquer pensamento mais profundo que não fosse o de carregar na tecla verde da fotocopiadora sempre que achava que precisava duma fotocópia. Por isso, só pensava estar uns dias à beira da piscina ou do mar a ler um livro ou então a desenhar para ver se aprendia qualquer coisa.
Mas mal bati com os pés no bungalow dei logo conta que, afinal, esqueci-me de introduzir no meu bem intencionado idílio, uma certa coisinha que, num momento de loucura, elaborei há 3 anos e que ronda agora os 93 centímetros que, viu-se logo, me iria fazer a vida negra e estragar todos os planos. E, claro, foi mesmo isso que fez!
Não sei quantas horas uma criança consegue passar sem dormir, mas o Buchas, tenho a certeza que andou muito perto dos piores records relatados na blogosfera e só dormia mesmo quando o seu corpinho não conseguia acompanhar o seu desejo de me cansar mais que um normal e estupidificante dia de trabalho.
Felizmente nem tudo correu bem para o Buchas, e Deus lá me deu duas abébias. Consegui, em duas manhãs, esgueirar-me da cama, entre as 08:00 e as 08:30, sentar-me naquele abençoado alpendre e desenhar. Não foi muito, eu sei, mas sempre foram dois desenhos. Isto porque passada meia hora, lá ouvia a porta a abrir e pronto:
"O que é que estás a fazer pai? Também quero pintar."


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O rapaz deve ter as suas razões

O Ronaldo está amuado e depois?
É perfeitamente normal que uma pessoa, depois de falar com a entidade patronal se sinta assim. Eu, normalmente, depois de falar com ela, também tenho tendência para ficar amuadito.  Nunca me dão razão em nada.
Seja como for é sempre reconfortante quando sentimos que os multimilionários têm sentimentos e que, podem ter problemas iguais ao comum dos mortais. Eu gosto de ver estas coisas e, mesmo sem saber o que se passou, acho que ele tem razão.
O melhor mesmo é deixá-lo em paz, dar-lhe espaço que isso, mais cedo ou mais tarde, acaba por passar.


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Este homem vai partir


Lá vou eu de férias. Como é apanágio em blogues deixo uma imagem paradisíaca para vincar o momento. Quer dizer, a imagem não é nada paradisíaca mas foi feita num dia em que eu e a Melissa estávamos sem o Gabriel e bebemos café na esplanada das Avencas que é, desde há muito, a nossa esplanada preferida. Adoramos lá estar, faça sol ou faça chuva. 
No verão está sempre cheia, o que é chato, mas no inverno não costuma lá estar ninguém o que torna tudo melhor, especialmente quando o mar está bravo e o céu cinzento. A Melissa lê, eu desenho.
Da última vez tentei desenhar corpos. Poderão pensar que eu fui um maganão e só desenhei corpos jeitosos, mas juro que não. Duas destas pessoas não o eram mas no desenho parecem que são. No entanto a rapariga de pé era mesmo jeitosa!
O que é porreiro é que as pessoas na praia não se mexem o que dá tempo para traçar os seus corpos sem interferências do movimento.
É o meu momento Titanic.






quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Do meu blog preferido

Desenho de Asaf Hanuka

Esconder a identidade


Nunca chegarei a compreender porque razão a malta no Facebook coloca fotos maradas no seu perfil. O objectivo do site, parece-me a mim, é que a pessoa possa ser encontrada por quem a procura. Ora, disponibilizar ao mundo a imagem duma flor ou dum carro de corrida não é a coisa mais acertada a fazer, a não ser que, claro está, o seu desejo seja que ninguém o encontre.
Ainda a semana passada, por culpa duma súbita nostalgia que me avassalou a alma, andei a tentar descobrir amigos de outros tempos que nunca mais pus a vista em cima. Já foi um castigo lembrar-me dos nomes deles e quando me lembrei, esbarrei com as fotinhas parvas. A busca tornou-se um tormento e mais valia ter ficado quieto porque não encontrei ninguém, a não ser motas, carros, crianças e bonecos de antigos desenhos animados.
E se aquela gente soubesse as saudades que sinto dela…


Paul Auster

Começa assim  a biografia de Paul Auster:

Pensas que nunca te vai acontecer, que não te pode acontecer, que és a única pessoa no mundo a quem essas coisas nunca irão acontecer, e depois, uma a uma, todas elas começam a acontecer-te, como acontecem a toda a gente”.

Desenho de Antony Hare

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Fotos memoráveis: A técnica vrs a paciência


Existem fotos icónicas como a da senhora afegã capa da National Geographic em 1985 ou a do marinheiro regressado da guerra a beijar uma enfermeira publicada na revista Life em 1945. São imagens que ninguém esquece e que perdurarão ao longo de várias gerações.
No entanto, nem só de belos instantes como estes vive a arte da fotografia. Todos os andarilhos do mundo gostam, também eles, de registar os seus momentos. Por isso é natural que nos álbuns de familiares e amigos encontremos alguns clichés que tanto contribuíram para a felicidade dos intervenientes, provocando, na altura em que foram captados, momentos de grande algazarra artística.
Uma das mais conhecidas é o acto de segurar a Torre de Pisa em Itália. É uma fotografia que exige bastante técnica porque o fotógrafo tem de dominar o enquadramento de forma a não estragar o efeito pretendido, e diz, quem passou por isso, que basta um milímetro mal calculado para ir tudo às urtigas.
Mas Lisboa também tem os seus ex-líbris e não há turista que não aprecie um passeio pelo Parque Expo. É um sítio bonito, atractivo para as vistas e com muito para ver. Confrontados com as explosões de água dos vulcões espalhados pelo Passeio Marítimo, não há ninguém com sentimentos no coração que deixe escapar tão formoso vislumbre. Vai daí, captar o exacto momento em que a água é projectada para o céu torna-se a prioridade de qualquer um. É só uma questão de paciência e dar tudo por tudo para que o modelo não se canse da espera e fique a sorrir na erupção. A demora costuma ser grande, mas se tudo correr bem, fica uma maravilha. 


terça-feira, 28 de agosto de 2012

Curtir a ciência


Um dos sítios mais porreiros de Lisboa para passar uma bela tarde em família é o Pavilhão do Conhecimento. Dá para todas as idades e duvido que alguém, seja miúdo ou graúdo, não se divirta com os brinquedos que por lá estão. Ainda por cima, e isso é muito importante, os pais podem ficar descansadinhos no sofá enquanto as crias se divertem a construir uma casa. Quer dizer, não constroem nada, mas pelo menos divertem-se com os seus capacetes amarelos e tijolos feitos de espuma. Não é uma coisa à prova de birras, há sempre algum mais temperamental que fica chateado porque outro lhe tirou o tijolo de espuma ou o carrinho que serve para carregar os tijolos de forma que os pais têm de intervir, mas dum modo geral passa-se um bom bocado.
Sabiam que, se colocarem um copo cheio de água, quase a transbordar numa mesa e enfiarem para lá dezenas de clips, um de cada vez e devagarinho, a água não derrama. Isso tem uma explicação, como é óbvio, mas eu não a sei.



segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Para isso é que existem os personal shoppers


Foram três os filmes do Batman. Três! E no final de todos eles a Melissa diz sempre a mesma coisa!
“Aquela boca pá. Qualquer habitante de Gothan saberia logo que o Batman era o Bruce Waine. O gajo tem a boca torta e, por muito que se tente não se consegue disfarçar uma coisa daquelas. É o que eu digo, de todos os actores, o Christian Bale era o único que não podia fazer de Batman por causa daquela boca. Ou então o contrário, poderia interpretar qualquer herói, desde que o fato tapasse o raio dos lábios!”


sábado, 25 de agosto de 2012

Os blogs são lugares estranhos


A Sra. D. Mulhercerta escreveu uma coisa no seu blog que me deixou pensativo e que muito provavelmente daria um excelente ponto de partida para alguma coisa.
O sumo do post, em plena silly season, era que mal as férias acabassem e se consumasse o regresso de alguns bloggers ao activo, se poderia finalmente saber para onde iriam correr as suas vidas e desvendar o desfecho de alguns episódios pendentes nas suas existências.
Ora, isso é maravilhoso. O livro aberto que alguns blogs são, muito embora se saiba que nem todo o negrume que a vida pare é partilhado, são uma bela fonte de inspiração. Um bom argumentista, que saiba ler nas entrelinhas do que é escrito, poderá encontrar nestes diários verdadeiras personagens de carne e osso, cheias de inveja, motivações e mentiras que, entrelaçadas com uma boa dose de ficção inteligente, dariam certamente substancia a uma bela série, ou um filme, porque não.
É a rapariga que gasta todo o dinheiro em roupa que é desenhada no metro pelo rapaz que anda com o seu diário gráfico a pintar Lisboa. A senhora que passa o dia a cozinhar para postar as suas criações encontra num workshop um jornalista muito metrosexual que casou com uma loira que quer ser famosa e que odeia uma colega dele que começou agora a emagrecer. É a mãe solteira que cuida da sua criança de 3 anos e encontra vá, um amante de cinema numa sessão do Twilight. O fotógrafo que trabalha no jornal do metrosexual, e que por acaso, é irmão da rapariga que gasta o dinheiro em roupa, fotografa, num trabalho, o interior da casa duma apaixonada por design de interiores que anda desesperada por um emprego na sua área e ocupa o tempo livre a alterar a decoração da sua casa e a dos amigos todas as semanas.
Bah, ná, muito Love Actually!

Desenho de Henri de Toulouse-Latrec

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Será mais um policial nórdico?

A Noruega aguarda com expetativa a abertura, prevista para esta tarde, de um misterioso pacote que foi selado em 1912 por Johan Nygaard, o então presidente da câmara da localidade de Otta, no centro do país, com a inscrição: "Para ser aberto no dia 24 de agosto de 2012".

O leitor precisa de respeito

Nunca gostei da nova literatura a que alguém chamou, e muito bem, de literatura de aeroporto. É uma escrita rápida, vazia e com técnicas de argumento de mau cinema. Os capítulos são curtinhos, cerca de duas páginas, para o leitor, coitadinho, não se cansar e que terminam sempre com uma meia revelação que serve de âncora para o capítulo que virá daqui a duas ou três páginas, jogando artificialmente com a curiosidade do fantoche que está a ler aquilo.
Detesto isso. Li O código da Vinci e pronto fiquei doente uma semana. A Melissa, que até gosta destas coisas, não fosse ela argumentista, comprou uma merda qualquer do José Rodrigues dos Santos e só a ouvia dizer “Oh Meu Deus” e cansada de tanta trapalhada foi à livraria pedir o dinheiro de volta e, imagine-se, eles devolveram.
Mas esta praga espalha-se como doenças num infantário e existem escritores a fazer uma rica vida disto. Vendem milhões de exemplares e as suas obras estão por todo o lado.
Depois do sucesso comercial que foi a trilogia Millenium, que nunca li, o mundo despertou para os policiais nórdicos. Começaram a chegar aos escaparates dezenas de títulos com lindas capas, brancas e manchadas a sangue como convém e a moda instalou-se.
Nunca fui um leitor de policiais, embora tenha passado por alguns livros pulp publicados pela Agência Portuguesa de Revistas e James Elroy que muito apreciei.
Munido de esperança e sabendo que os nórdicos além de terem bons políticos e mulheres bonitas fazem também boa música, imaginei que os policiais acompanhassem a qualidade de outras áreas. Uma amiga comum emprestou-nos o recente Lembro-me de ti da islandesa Yrsa Sigurdardóttir que ganhou o prémio de ficção policial nórdica.
Iniciei a leitura todo contente e até nasceu bem. Bom ambiente e coisas ruins e inexplicáveis a acontecerem. Aos poucos, não sei se por preguiça ou falta de jeito, os capítulos começaram a finalizar com as âncoras e as personagens com nomes esquisitos a falar todas da mesma maneira, sendo todas iguais, sem características que as diferenciassem umas das outras e aos poucos o ambiente foi parar às urtigas. A paciência esgotou-se quando um doente terminal, cuja situação clínica foi descrita pela autora como “O velho tinha piorado…Os papos sob os olhos estavam amarelados e, apesar da febre que se instalara, o seu rosto estava de uma palidez mortal. Nem a tosse lhe provocara cor nas faces. A única coisa que aquele fraco ruído seco causava era interferir naquilo que estava a dizer.”
Mas não, o raça do velho ficou em amena cavaqueira com o polícia, lembrando-se de todos os pormenores duma situação ocorrida há 40 anos nunca se sentindo cansado e até, pasme-se, debitando frases enormes e assertivas que muito úteis foram para o desvendar do mistério. Parei na página 160 a bufar o tempo perdido.
Que se lixem os policiais nórdicos, se é para isto não contem mais comigo!

Desenho de Tommy Kane

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Páginas perdidas

Na segunda-feira fiz um exercício de reflexão e fiquei muito contente de conseguir reflectir. Isso só aconteceu porque é Agosto e não temos muito que fazer aqui no trabalho. Essa, aliás, foi a minha primeira reflexão: se não tivesse um emprego tão estupidificante podia ser uma pessoa mais inteligente.
Isto tudo para informar que estive a matutar seriamente no que vai ser da literatura a partir de agora. Aqui fica o essencial:
É certo que, mais tarde ou mais cedo, toda a gente vai ter aquelas geringonças da Amazon para ler livros e jornais. São leves, não fazem mal aos olhos, podem ter centenas de livros lá dentro e já não vai ser necessário abater árvores para o fabrico de folhas, podendo as mesmas servir para a produção insana de panfletos de promoções de supermercados, catálogos de empresas de imobiliário ou flyers de serviços de desentupimento de canos e todo o tipo de obras ao domicílio.
Bem, o certo é que os livros no espaço duma década vão dar o berro. Vão-se transformar no vinil da literatura. Já vimos o mesmo a acontecer na música e no cinema. A pirataria atacou em força e são poucas as bandas que ganham alguma coisa com a edição dos seus discos, conseguindo os seus ganhos sobretudo em concertos. Esses safaram-se e no cinema também porque a experiência de assistir a um filme numa tela e num espaço escuro suplanta a qualidade dos ficheiros avi.
A minha pergunta é: Então, e os escritores? Se o futuro da literatura for o ficheiro .pdf, e antevendo que a facilidade de piratear seja a mesma que piratear o último álbum do Justin Bieber ou derradeiro filme do Twilight antes do escândalo do beijo, o que vai ser dos homens das letras? Haverá forma de conseguirem o sustento? Bem sei, que, no início de carreira, esta gente em Portugal ganha um cêntimo por exemplar vendido, mas imaginem o futuro da Margarida Rebelo Pinto, do Miguel Sousa Tavares, das bloggers que se lançaram agora no mundo da literatura, o que vai ser desta gente quando as suas maravilhosas e intemporais criações forem vilipendiadas por internautas sem escrúpulos? Como vão pôr pão na mesa?
O futuro também não se mostra muito risonho para as bibliotecas. Deixando de haver livros, em que moldes vão funcionar estes espaços?
Caramba, isso até pode afectar as estantes Ikea. A não ser que goste de encafuar bibelôs nelas, qual vai ser a sua utilidade?
Em última análise vai ser o fim de espaços como o Fnac, Bulhosa e Bertrand para já não falar na existência da feira do livro.
Isto não está nada com bom aspecto.

Desenho de Eduardo Salavisa